O carcinoma papilífero subtipo sólido / trabecular é um subtipo raro do carcinoma papilífero de tireoide — responde por apenas 1 a 3% dos casos em adultos. Tem uma história única: foi o subtipo mais frequente entre crianças expostas à radiação após o acidente de Chernobyl, em 1986 — chegando a representar mais de 30% dos casos pediátricos naquela população. Além do contexto histórico, apresenta comportamento clínico bimodal: em adultos, tende a ser mais agressivo que o clássico; em crianças e adultos jovens, comporta-se de forma indolente, com prognóstico próximo ao PTC convencional. Neste guia, explico o que é, como se diagnostica, como se trata e o que esperar do seguimento.
Em Resumo
Frequência
1–3% dos carcinomas papilíferos em adultos · >30% em crianças pós-Chernobyl.
Definição WHO 2022
>50% do tumor com padrão sólido, trabecular ou insular — mantendo características nucleares de PTC.
Perfil molecular
Fusões RET/PTC e NTRK1/3 mais frequentes que BRAF V600E — perfil molecular distinto.
Comportamento bimodal
Adultos: prognóstico intermediário · Crianças/jovens: comportamento como PTC clássico.
Ligação com radiação
Alta frequência em populações com exposição prévia à radiação ionizante externa.
Prognóstico
Intermediário em adultos, favorável em crianças e jovens. Depende da resposta ao tratamento.
O subtipo sólido / trabecular é definido pela arquitetura ao microscópio. Enquanto o PTC clássico mostra papilas verdadeiras e o FVPTC apresenta folículos, esse subtipo tem células dispostas em lâminas sólidas, cordões trabeculares ou ninhos insulares — sem formação de papilas verdadeiras e com pouco ou nenhum coloide.
Para receber essa classificação pela OMS 5ª edição (2022), o tumor precisa ter mais de 50% do seu volume com esse padrão sólido/trabecular/insular, e ao mesmo tempo apresentar as características nucleares do carcinoma papilífero — cromatina em vidro fosco, contornos irregulares, sulcos e pseudoinclusões. Sem essas alterações nucleares, o tumor não é PTC.
Contexto Histórico
O acidente nuclear de Chernobyl, em abril de 1986, liberou grandes quantidades de iodo radioativo (I-131) na atmosfera. Crianças nas regiões afetadas absorveram esse iodo pela glândula tireoide — que capta iodo naturalmente para produzir hormônios. Nos anos seguintes, houve um aumento marcante da incidência de câncer de tireoide nessa população pediátrica.
O que surpreendeu os pesquisadores foi que o subtipo sólido/trabecular, antes considerado raro em qualquer idade, respondeu por mais de 30% dos casos de PTC em crianças expostas à radiação. A investigação molecular subsequente identificou uma alta frequência de fusões gênicas RET/PTC (especialmente RET/PTC3) nesses tumores — assinatura molecular característica de exposição à radiação.
Essa observação epidemiológica se tornou uma das evidências mais robustas da relação entre radiação ionizante externa e câncer de tireoide. Também explica por que pacientes com histórico de radioterapia cervical na infância (por linfoma, leucemia, ou outros cânceres) têm risco aumentado de desenvolver PTC — frequentemente do subtipo sólido/trabecular.
Os achados histológicos definidores desse subtipo:
Ponto crítico: a distinção entre o subtipo sólido/trabecular de PTC e o carcinoma pouco diferenciado (PDTC) é essencial e nem sempre simples. O PDTC também pode ter padrão sólido/trabecular/insular, mas apresenta atipia nuclear marcada, alta contagem mitótica ou necrose — critérios de Turim. A revisão por patologista especializado em tireoide é fundamental para essa diferenciação, que muda o tratamento e o prognóstico.
Uma das características mais interessantes desse subtipo é seu comportamento clínico bimodal — muito diferente entre grupos etários. Reconhecer isso é essencial para individualizar o tratamento.
Em adultos (especialmente acima de 40 anos), o subtipo sólido/trabecular tende a apresentar comportamento clínico mais agressivo que o PTC clássico.
CaracterísticasMaior taxa de invasão vascular · Maior risco de metástases hematogênicas (pulmões) · Recidiva mais frequente.
PrognósticoIntermediário — sobrevida em 10 anos menor que o clássico, mas ainda favorável com tratamento adequado.
ManejoTratamento mais intensivo desde o início: tireoidectomia total, iodo radioativo, supressão de TSH ajustada ao risco.
Em crianças e adultos jovens (especialmente na população pós-Chernobyl), o mesmo subtipo se comporta de forma essencialmente indolente.
CaracterísticasMetástases linfonodais cervicais podem ser frequentes, mas raramente à distância · Doença geralmente controlada com tratamento padrão.
PrognósticoBom — sobrevida em longo prazo comparável ao PTC clássico infantil.
ManejoTireoidectomia total + esvaziamento cervical quando indicado + iodo radioativo em doses pediátricas ajustadas.
Importante: essa dualidade de comportamento explica por que a idade ao diagnóstico é um dos principais fatores prognósticos nesse subtipo. Um mesmo padrão histológico pode representar cenários clínicos muito diferentes — o que reforça a necessidade de conduta individualizada, considerando idade, extensão do tumor, presença de invasão e histórico de exposição à radiação.
Em Desenvolvimento
Estamos preparando uma galeria dedicada com imagens reais de ultrassonografia e lâminas citológicas do subtipo sólido/trabecular, permitindo que pacientes e profissionais reconheçam visualmente os padrões descritos aqui — especialmente as lâminas sólidas, cordões trabeculares e ninhos insulares que caracterizam esse subtipo. Publicação em breve.
Ao ultrassom de tireoide, o subtipo sólido/trabecular apresenta achados que refletem sua alta celularidade e baixo conteúdo de coloide:
Nenhum desses achados é específico do subtipo sólido/trabecular — o ultrassom identifica a suspeição de malignidade, mas a definição do subtipo depende sempre da PAAF e da análise histológica.
A punção aspirativa por agulha fina (PAAF), classificada pelo Sistema Bethesda (TBSRTC 3ª edição, 2023), permite frequentemente sugerir o subtipo sólido/trabecular antes da cirurgia — o que orienta o planejamento cirúrgico.
Achados citológicos característicos do subtipo sólido/trabecular (TBSRTC 3ª Ed):
• Fragmentos sólidos ou trabeculares de células — sem lúmens foliculares visíveis
• Ninhos ou cordões celulares — arranjos densos, coesos
• Ausência ou raridade de papilas verdadeiras
• Pouco ou nenhum coloide no fundo do aspirado
• Características nucleares de PTC preservadas — cromatina levemente pálida, contornos irregulares, sulcos, pseudoinclusões (embora frequentemente menos evidentes)
• Diagnóstico diferencial importante com carcinoma pouco diferenciado — ausência de atipia marcada, mitoses raras e ausência de necrose favorecem PTC subtipo sólido
Quando o citopatologista identifica esses achados, o laudo especifica Bethesda VI (maligno) com nota descritiva sugerindo subtipo sólido/trabecular. Essa comunicação é essencial para orientar o planejamento cirúrgico — habitualmente indica-se tireoidectomia total e esvaziamento cervical adequado.
O perfil molecular do subtipo sólido/trabecular é distinto do PTC clássico e do tall cell — sugere biologia particular:
| Alteração | Frequência | Significado clínico |
|---|---|---|
| Fusões RET/PTC | Frequentes — especialmente RET/PTC3 | Marcador molecular de exposição prévia à radiação · Possível alvo terapêutico (selpercatinib, pralsetinib). |
| Fusões NTRK1 / NTRK3 | Frequentes em subgrupos | Alvo terapêutico (larotrectinib, entrectinib) — decisão em contexto multidisciplinar. |
| Fusões ALK | Ocasionalmente | Alvo terapêutico (crizotinibe). |
| BRAF V600E | Menos frequente que no clássico | Presente em uma minoria dos casos — perfil diferente do tall cell. |
| TERT promoter | Pode surgir em casos agressivos | Marcador de risco de progressão. |
A alta frequência de fusões gênicas (RET, NTRK, ALK) tem grande relevância clínica — em doença avançada, refratária ao iodo, esses tumores podem ser candidatos a terapias-alvo modernas com resultados frequentemente favoráveis. A pesquisa molecular é especialmente importante em casos avançados ou pediátricos.
O comportamento clínico depende diretamente da idade ao diagnóstico e da presença de fatores de risco:
Em adultos:
Em crianças e adultos jovens:
O caminho diagnóstico até a definição do subtipo sólido/trabecular:
1. Ultrassom de tireoide: identifica o nódulo, avalia padrão ecográfico e linfonodos suspeitos.
2. PAAF com Sistema Bethesda: classifica o material como maligno (Bethesda VI) e, quando possível, sugere subtipo sólido/trabecular nas notas descritivas do laudo.
3. Investigação de histórico de exposição à radiação: radioterapia cervical prévia, exposição a acidentes nucleares, tratamento de câncer na infância. Essa história muda a suspeita de subtipo.
4. Planejamento cirúrgico: tireoidectomia total + esvaziamento cervical adequado, especialmente em pacientes adultos ou quando há linfonodos suspeitos.
5. Análise anatomopatológica pós-cirúrgica: confirma diagnóstico, quantifica o percentual do padrão sólido/trabecular/insular, avalia margens, invasão vascular, envolvimento linfonodal e afasta diagnóstico diferencial com carcinoma pouco diferenciado.
6. Testes moleculares: especialmente importantes em doença avançada — pesquisa de fusões RET, NTRK, ALK e mutações driver (BRAF, TERT). Orienta terapias-alvo em casos refratários.
O tratamento do subtipo sólido/trabecular é individualizado por idade e extensão da doença:
Em adultos:
Em crianças e adultos jovens:
Atenção: em pacientes com histórico de radioterapia cervical prévia (por linfoma na infância, por exemplo), o tratamento deve ser especialmente cuidadoso — a cirurgia pode ser mais complexa devido a fibrose local, e as decisões sobre iodo radioativo consideram doses cumulativas prévias de radiação. Discussão multidisciplinar é essencial.
O prognóstico depende diretamente da idade e de fatores individuais:
Fatores que influenciam o prognóstico individual:
Dúvidas mais comuns de pacientes que receberam diagnóstico de carcinoma papilífero subtipo sólido, trabecular ou insular.
Não faz parte da tríade de subtipos agressivos oficialmente reconhecidos pela OMS 2022 (tall cell, columnar cell e hobnail). Porém, em adultos, tem prognóstico intermediário — menos favorável que o PTC clássico, com maior risco de invasão vascular e recidiva. Em crianças e jovens, o comportamento é essencialmente indolente. É um dos subtipos onde a idade importa muito para definir o tratamento.
Após o acidente nuclear de Chernobyl (1986), grandes quantidades de iodo radioativo (I-131) foram liberadas na atmosfera. Crianças nas regiões afetadas absorveram esse iodo pela tireoide. Nos anos seguintes, houve aumento marcante de PTC nessa população, com o subtipo sólido/trabecular respondendo por mais de 30% dos casos pediátricos. Foi uma das evidências epidemiológicas mais claras da relação entre radiação ionizante e câncer de tireoide.
Sim. A maioria dos casos em adultos ocorre sem histórico prévio de exposição à radiação — são casos esporádicos. O contexto pós-Chernobyl é epidemiologicamente importante, mas na prática clínica a maioria dos pacientes com esse subtipo não teve exposição prévia. Investigar histórico de radioterapia cervical na infância (por linfoma, por exemplo) faz parte da avaliação de rotina.
Essa dualidade tem raízes biológicas complexas. Uma parte da explicação está no perfil molecular: em crianças, especialmente pós-radiação, predominam fusões gênicas RET/PTC (menos agressivas biologicamente); em adultos esporádicos, mutações adicionais (como TERT ou TP53) podem coexistir e aumentar agressividade. Além disso, a resposta hormonal e imunológica da tireoide difere entre grupos etários.
Tireoidectomia total, esvaziamento cervical conforme envolvimento linfonodal, iodo radioativo em doses ajustadas ao risco intermediário/alto e supressão de TSH moderada a rigorosa. Em doença avançada refratária ao iodo, com fusões gênicas identificadas, terapias-alvo (inibidores de RET, NTRK ou ALK) podem ser consideradas com bons resultados.
Tireoidectomia total (especialmente com envolvimento bilateral ou linfonodos comprometidos), esvaziamento cervical conforme necessidade, iodo radioativo em doses pediátricas ajustadas e supressão de TSH menos agressiva. O seguimento próximo com TSH, tireoglobulina e ultrassonografia cervical é essencial. O prognóstico costuma ser favorável.
Sim, especialmente em casos com fusões gênicas identificadas. Pacientes com fusões RET/PTC podem responder a selpercatinib ou pralsetinib. Fusões NTRK1/3 respondem a larotrectinib ou entrectinib. Fusões ALK podem responder a crizotinibe. Essas terapias são reservadas para doença avançada, refratária ao iodo, com testes moleculares realizados. As respostas costumam ser boas em pacientes selecionados.
Não necessariamente. As fusões RET/PTC são características biológicas do subtipo sólido/trabecular pós-radiação e, em muitos casos (especialmente pediátricos), estão associadas a comportamento indolente. Em adultos, a associação com prognóstico varia — mutações adicionais (TERT, TP53) alteram o cenário. A fusão RET/PTC por si só é um marcador biológico, não um prognosticador absoluto.
É um dos principais desafios patológicos. Ambos podem ter padrão sólido/trabecular/insular, mas o carcinoma pouco diferenciado apresenta atipia nuclear marcada, alta contagem mitótica e/ou necrose — critérios de Turim. Já o PTC subtipo sólido/trabecular mantém características nucleares clássicas de PTC (vidro fosco, sulcos, pseudoinclusões) sem esses critérios agressivos. Revisão por patologista especializado é essencial.
Acompanhamento Especializado
Dra. Vanessa Cherniauskas Morikawa — Endocrinologista
CRM-SP 177190 · RQE 103720
Avaliação, conduta e seguimento do carcinoma papilífero subtipo sólido/trabecular — incluindo casos com histórico de exposição prévia à radiação, doença avançada com fusões gênicas (RET, NTRK, ALK) e pacientes em contexto pediátrico ou adulto. Doutora em Ciências da Saúde pela FCMSCSP, com atuação no Núcleo de Tireoide da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Realizo pessoalmente ultrassonografia, punção (PAAF) e análise citológica, com integração direta à patologia especializada, cirurgia de cabeça e pescoço e oncologia clínica quando terapias-alvo são consideradas. Conduta alinhada às diretrizes da ATA (2015) e à classificação WHO 5ª edição (2022). Atendimento particular, em Pinheiros, ou por telemedicina.
Atuação Acadêmica e Hospitalar
Beneficência Portuguesa de São Paulo · Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
Recebeu diagnóstico de carcinoma papilífero subtipo sólido/trabecular ou está em seguimento? Agende uma avaliação:
Consultório
Rua Cristiano Viana, 401
Conjuntos 209 / 210
Pinheiros, São Paulo — SP
Modalidades
Presencial em Pinheiros
Telemedicina para todo o Brasil
Atendimento em inglês disponível
Diferenciais Técnicos
USG, PAAF e citologia integradas
Pesquisa molecular (RET, NTRK, ALK)
Interface com oncologia clínica